OPINIÃO
Casa Gucci: como destruir um legado
   
Artigo do advogado Gabriel Scortegagna - Biolchi Empresarial

Por Gabriel Scortegagna Pedra
28/01/2022 13h54

O filme Casa Gucci estreou nos cinemas em novembro de 2021, retratando a trágica história que permeou a sucessão dos negócios da família proprietária da famosa marca Gucci da segunda para a terceira geração. Embora seja um filme, nele reproduzem-se diversos aspectos comumente encontrados em empresas familiares que estão em processo de sucessão, servindo de alerta para que os empresários identifiquem alguns problemas antes que seja tarde.

A história da família Gucci e o filme são repletos de exemplos que deixam clara a corriqueira confusão existente entre as esferas da família, propriedade e negócio , sendo a família a base das outras duas e a que, geralmente, acaba por sobrepor-se à propriedade e ao negócio.

Neste sentido, o filme destaca o difícil relacionamento entre irmãos, pais, filhos, primos e cônjuges — iniciando-se por retratar um problema envolvendo Aldo e Rodolfo, filhos do fundador da companhia, Guccio Gucci, responsáveis por comandar os negócios. Entretanto, a situação se agravou quando os irmãos buscaram trazer seus filhos Paolo e Maurizio para dentro das atividades, pois Paolo, filho de Aldo, apesar de muito interessado, era incompetente e confrontava-se muito com seu pai e seu chefe, o tio Rodolfo. Por sua vez, Maurizio, em que pese capaz, desinteressava-se pela empresa, especialmente em razão de seu difícil relacionamento com seu pai, Rodolfo.

A partir disso, estavam postas as bases para o fracasso da sucessão da família no comando da empresa, desencadeando-se uma série de acontecimentos que levariam ao trágico final. A Gucci, cuja marca atualmente está avaliada em US$ 22,6 bilhões, passou a não contar com mais nenhum membro da família fundadora em seus quadros, sendo mais um exemplo comum, em que pese com maior dramaticidade, do que ocorre com 88% das empresas familiares no mundo .

Assim, apesar deste exemplo cinematográfico, o leitor e, especialmente, os empresários devem considerar que os fracassos na sucessão e nos negócios são a regra e não a exceção, de modo que se vislumbram três principais caminhos para as empresas familiares: (i) continuar como está e fracassar no processo; (ii) vender a empresa antes que perca valor; ou (iii) transformar-se em família empresária, implementando as melhores práticas de governança familiar e corporativa, permitindo a geração de valor ao longo das gerações.

Desse modo, a empresa familiar que deseja trilhar esta jornada transformadora deve, inicialmente, estar ciente que as esferas da família, propriedade e negócio são distintas. Na primeira, busca-se o bem-estar, união, vínculos e o afeto. Já na segunda, a longevidade, sustentabilidade e o retorno financeiro. Na última, profissionalismo, desempenho e resultado.

Para gerenciar estes distintos interesses e motivações, requer-se, além de saber o seu papel e o momento de atuação em cada uma destas esferas, a instalação de fóruns de debate, tal como o conselho consultivo, e a elaboração de instrumentos que regulem a relação entres as esferas e os seus agentes, exemplificativamente, acordo de sócios e protocolo familiar.

Os empresários que pretendem estar entre os seletos 12% que sobrevivem ao teste do tempo, deixando um legado para seus filhos e netos, devem ser proativos, buscando implementar as melhores práticas de governança enquanto há tempo. Caso contrário, conforme demonstram as estatísticas, o ditado “pai rico, filho nobre, neto pobre” continuará a ser repetido. E, mesmo sem os dramas do cinema, o roteiro do filme poderá acontecer na vida real, com novas “Casas Gucci”.

 

Referências

[1] R. TAGIURI, Renato; DAVIS, John. A. On the Goals of Successful Family Companies, 1992.

[1] FORBES. . Acesso em 10 de janeiro de 2022.

[1] PwC. A Conexão que Faltava: A Importância do Planejamento Estratégico para o Sucesso da Empresa Familiar, 2016, p.5. <https://www.pwc.com.br/pt/setores-de-atividade/empresas-familiares/2017/tl_pgef_17.pdf>. Acesso em 10 de janeiro de 2022.


   

  

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